Um Pai Quase Perfeito

Os diálogos narrados a seguir se passam entre os episódios V (êêêêê!) e VI (bleargh!) de Star Wars, mas o que ocorreu aqui não pertence a nenhum dos episódios, entendeu? Não? Pois é, eu também não. Os nomes dos personagens foram mantidos os mesmos para que os diálogos pudessem ser compreendidos (dãããã!).
No interior da segunda estrela da morte, em uma passarela de acesso, Darth Vader observa um grupo de stormtroopers disparar suas armas em um rato de seis pernas que passava correndo por eles. Todos eles erram, obvio, e os disparos abrem um buraco no chão onde todos caem aos berros. Darth Vader apenas balança a cabeça negativamente quando subitamente alguém grita a plenos pulmões atrás dele:
- E aí, paiêêê! O que que manda?
Darth Vader dá um salta para frente, fica pendurado na lateral da passarela e com muito esforço, consegue subir de volta. Mais ofegante do que o normal, ele reclama:
- Mas que idéia foi essa, meu filho? Quer matar seu pai do coração?
- Ora essa, pai, você é o vilão da série, com certeza não vai morrer de um ataque cardíaco bobo ou uma quedinha de algumas dezenas de metros de nada. Mas por que está ofegando assim? Algum efeito colateral do estresse de comandar os soldados mais burros do universo?
- Essa respiração forçada é uma das minhas marcas registradas, assim como essa franjinha ridícula é a sua! E de quem foi a genial idéia de me assustar desse jeito?
- Foi daquele soldado parado ali na porta, ele assistiu ao episódio V e ficou com duvida se você é meu pai de verdade, então pediu para ver se me deixaria vivo após fazer isso, o que provaria que sou realmente seu filho…
Apontando o dedo indicador para o soldado a quem Luke se referiu, Darth Vader pergunta:
- Você quer dizer aquele soldado ali, com as pernas e os braços quebrados?
Então ouve-se quatro sonoros “crack” e o soldado cai no chão gritando:
- Aaahhh! Isso dói sabia?
Após fazer isso, Darth Vader fica gesticulando com a mão direita para cima e para baixo enquanto aponta para o soldado, que fica balançando no ar.
- Você quis dizer aquele ali que deve estar dizendo: “Papai! Papai! Quero ser um menino de verdade!”?
E, dizendo isso, ele arremessa o soldado no buraco feito pelos outros. Com uma expressão séria no rosto, Luke diz:
- puxa pai, já tinham me falado que você é manipulador, mas assim também é demais…
- Ah! Ele mereceu… Mas o que veio fazer aqui, meu filho? Afinal, eu sou o comandante deste contingente de milhares de soldado que tem como uma das principais funções aniquilar o seu patético e desprezível grupelho de rebeldes maltrapilhos e você é um dos líderes deles… Quer dizer… Não pega bem para nenhum de nós ficar conversando amigavelmente em publico como dois políticos combinando propina…
- É que hoje é meu aniversário e eu resolvi vir até aqui para ver se podemos fazer alguma coisa juntos que não seja duelar e destruir cenários caros…
- Hoje é seu aniversário? Puxa… Eu não fazia idéia…
Fazendo um gesto para um soldado que passava perto dali, Darth Vader ordena:
- Você, projeto de inutilidade, traga café para meu filho, ande logo!
- O soldado sai correndo aos tropeços e dizendo:
- S-sim, meu senhor, é pra já!
- E como conseguiu entrar aqui, filho? Ninguém disparou em você no caminho?
- Sim, atiraram em mim algumas centenas de vezes…
- E não acertaram nenhum tiro?
- Ah!Ah!Ah! Muito Boa essa, pai! Você é muito engraçado! Ahn… Você… Não está rindo… deixa assim…
- Você já tentou acertar um tiro em alguém usando esses capacetes? Pode se considerar com sorte se conseguir enxergar o chão…
- Então por que usam capacetes?
- Porque eles foram desenhados pelo sobrinho do Imperador, que não entende nada de design militar e fica tendo pitis quando os soldados não usam os capacetes. O final disto é que e o imperador tem de aturar os seus pitis e nos castiga!
- De que forma?
- Das formas mais maquiavélicas e terríveis que você possa imaginar, filho…
- tipo proibir o uso de sal na batata frita?
- Pior, muito pior!
- Tipo obrigar todo mundo a assistir programa de auditório?
- Bem pior… Para você ver como ele pode ser mau, da última vez ele obrigou todos nós a utilizarmos holonet discada por um mês inteiro…
- - Ah! Ele é meu mesmo… Mas mudando de assunto, essa nova estrela da morte está ficando bem ajeitada…
- É… Não está nos saindo muito barato não…
- Ahn… E… Ela… Também tem… O famoso… “Ponto fraco”?
- Ah! Não comece você também! Se não fosse pelo “ponto fraco” vocês não teriam destruído a primeira! Só porque não tem dinheiro para construir a sua própria estrela da morte, ficam destruindo a dos outros… Bando de recalcados…
- Ta bom, ta bom… Mas por que as duas têm esse pequenino defeito?
- Porque está no projeto original, e para mudarmos algo no projeto original precisamos organizar uma comissão de engenheiros que organizará uma votação para criar uma nova comissão que escolherá a forma de indicar um perito que indicará um profissional habilitado que analisará o projeto e indicará uma nova comissão para…
- Resumindo…
- Ou construímos com “ponto fraco” ou só começamos a construir quando o C3PO conseguir vencer uma maratona…
Nisso, chega o soldado que havia ido buscar café trazendo uma bandeja com uma xícara.
Ah! Seu café chegou, filho! Prove…
- Luke segura a xícara e nota que de um lado dela está a foto de Han Solo congelado em carbonita e de outro está escrito “Han Congelou Primeiro”
Aaaahhhh! Que coisa doentia!
- O quê? A xícara? Mas é um dos nossos produtos mais vendidos! Acho que muitos machos de diversas espécies têm ciúmes do Han Solo por ele ter conquistado a Leia e se sentem um pouco menos tristes sabendo que ele se tornou um peso de papel muito caro…
- Mas vocês não são mais a aliança de comércio, vocês são o Império, que desintegra planetas primeiro e pergunta depois!
- E de onde acha que conseguimos créditos para construir armas de destruição maiores que os egos do Michel Jackson e Luana Piovanni juntos? Além do mais, é difícil perder velhos hábitos… Mas prove seu café…
Luke experimenta o café e o cospe fora.
- Argh! Que horrível! Eca!
- O que foi? O café é requentado ou reciclado?
- Não! Pior que isso! Está morno! Que tipo de pai serviria… Ah… Meu pai… Que me abandonou para viver em um planeta desértico com tempestades de areia um dia sim e o outro também! Eu tinha que escolher entre comida com pouco ou muita areia… Pode-se dizer que o termo “peso no estômago” tinha um sentido literal em Tatooine…
- Não vá me dizer que por causa disso você sofre até hoje em dia de pedras nos rins! Ah! Ah! Ah! Boa essa, não?
- Certo, certo… Já entendi… Você está tentando me fazer sentir raiva para que eu me deixe dominar pelo “lado não tão legal” da força, não é?
- É? Quer dizer… Sim! Exatamente!
- pois pode esquecer, pai, o mestre Yoda me ensinou a evitar o ódio…
- Ah, sei… Até que aquele exilado da Vila Sésamo não é tão inútil, afinal… Ele já aprendeu a colocar o sujeito antes dos verbos? Centenas de anos de idade e ainda…
- Não vou admitir que o ofenda assim! Eu vou… Certo… Já entendi… Olha, pai, se eu não sinto raiva do Han por ele ter roubado minha garota, nem do C3PO por ele não calar a boca nunca, nem do Yoda pelos exercícios idiotas que nunca acabam e nem do Chewie por ele espalhar pêlos por todo lugar então acredito que não tem nada que você possa fazer que me deixará cheio de ódio…
- Acha mesmo, filho?
- Sim, acho!
- Nem se eu lhe disser que a minha figura de ação vende mais do que o dobro da sua?
- Aaahhh! É mentira! Desgraçado maldito, eu vou te matar para acabar com suas mentiras!
- Me matar! Hmmm… Acho que vai precisar da mãozinha de alguém para poder fazer isso…
- Aahh! Minha mão! Ela estava comigo desde que eu era criança e você a cortou! E ainda tira sarro disso?
- Sim, é o que faço, já que você não tem escolha a não ser se aliar a mim!
- E como pode ter certeza disso?
- Simples, eu li o roteiro do episódio VI que vazou na holonet e contratei alguns hackers para apagá-lo definitivamente, e não, os hackers não usam os malditos capacetes… Dessa forma somente eu sei o que irá ocorrer e usarei isso a meu favor, óbvio!
- Sua maldade não tem limites?
- Bem, não é todo mundo que pode levar a vida fazendo o que gosta, mas eu tenho essa sorte… Soldados! Levem-no de volta à sua naveca ultrapassada!
Luke é segurado por dois soldados em cada braço e é levado a força para o hangar quando ouve Darth Vader gritar:
- Essa mão de obra barata é uma verdadeira mão na roda, não acha, filho?
- Luke esbraveja de volta:
- eu te odeio! Odeio! Aaahhh!
Com um ar de satisfação, Darth Vader pensa:
- Espera até ele descobrir que eu menti para ele e que o roteiro do episódio VI ainda nem foi feito… Ficará com mais raiva de mim ainda… E que idéia essa que ele teve de eu manipulá-lo para que se unisse a mim… Isso é tipo de coisa que deixa um pai orgulhoso e faz todo o trabalho valer a pena!
Texto de Jacques F. Beduhn
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